Mikhail Gorbatchov

Na semana passada vimos partir uma das mais proeminentes figuras da História Mundial. Mikhail Gorbatchov pereceu aos 91 anos, vítima de doença prolongada, deixando-nos um legado inestimável: o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Gorbatchov nasceu numa família pobre de operários camponeses em 1931, altura em que a URSS era liderada por Estaline, trabalhando desde criança num kolkhoz (base do sistema de coletivização da agricultura na URSS, que obrigava os camponeses a permanecer nas terras, e a quem tantas vezes eram confiscados alimentos e bens através do uso da força, levando a situações de grande fome), e desde cedo enveredou pela militância no Partido Comunista da União Soviética (como se alternativas restassem). Apoiante de Nikita Kruschev, de quem se tornou Ministro da Agricultura, foi membro do Politburo, do Comité Central e do Soviete Supremo. Subiu na hierarquia do Partido Comunista da União Soviética até se tornar Secretário-Geral, sucedendo aos breves mandatos de Andropov e Chernenko, e tornou-se o líder da União Soviética em 1985. Em boa hora!

Pese embora estivesse ligado a uma ideologia comunista, Gorbatchov desde cedo percebeu que o rumo tomado desde a revolução russa de 1917 até àqueles tempos levava a desgraças contínuas e irreparáveis. “Um longo processo de repensar a história do país que se estendeu por anos”, disse, ainda enquanto estudante.

Então, chegado a líder máximo da União Soviética, fez por mudar: implantou as políticas da Perestroika, Glasnost e Novoe Michelenie, que se direcionavam, respetivamente, para a reestruturação da União Soviética, para a transparência e para o novo pensamento. Reconheceram-se as falhas do sistema social e político e procuraram-se maneiras de as emendar: combateu-se o alcoolismo, os rendimentos ilícitos, o controlo estatal da qualidade da produção e a corrupção. “O povo não pode carregar ao pescoço o aparelho do partido (comunista), que nada faz para a perestroika!”, disse em 1986. Seguiu-se, assim, a época das reformas: com o início da política da glasnost (transparência), passam a discutir-se temas anteriormente tabu, como os crimes perpetrados por Lenine ou Estaline, permitindo a reabilitação das vítimas; abriu-se a comunicação ao mundo, de que é exemplo a catástrofe de Chernobyl; reformou-se a liberdade de expressão e despertou-se a autoconsciência nacional; fez regressar Andrei Sakharov ao país, pela via da amnistia, acabando a perseguição política a tantos exilados.

E com tudo isto, criou um novo pensamento de política externa, que permitiu o aprofundamento de relações com o Ocidente. Assinou o tratado Start-1 e o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário com os Estados Unidos; fez cair o muro de Berlim; desmantelou-se a União Soviética… e o mundo mudou para melhor!

Em 1990 foi galardoado com o Prémio Nobel da Paz pelo seu “papel de liderança no processo de paz”. Um ano mais tarde, afirmou: “Na hora de aceitar o cargo mais alto do país, o de secretário-geral do Comité Central do PCUS, percebi que é impossível continuar a viver assim, e não me permitirei permanecer neste cargo se não for apoiado na implementação de mudanças fundamentais”.

Demitiu-se no dia de Natal em 1991. Faleceu em 2022.

Pelo legado que deixou ao mundo, fazendo-o um lugar muito melhor do que quando o encontrara, Gorbatchov conta com o nosso reconhecimento e agradecimento. Conta também com as estultas críticas daqueles que a elas já nos habituaram, sejam sobre guerras, regimes ou personalidades; daqueles que, saudosamente, viram cair o seu império no momento em que se implantaram medidas de combate à corrupção e à falta de transparência. Elucidativo! O truque, porém? Atribuirmos às coisas, pessoas e organizações, o valor que elas nos merecem. No mais, os cães ladram e a caravana passa!

 

 

Manuel João Fernandes de Nascimento

Deputado Municipal pelo CDS-PP,

 

Vila Nova de Famalicão, 05 de setembro de 2022.

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