Professor Adriano Moreira

Deixou-nos, aos 100 anos, o Professor Adriano Moreira. Portugal perdeu um dos seus maiores.

Não há muito que se possa dizer além de tudo quanto sempre, sobre ele, foi conhecido. No entanto, há referências que, na hora da partida, se não podem deixar por fazer.

O Professor Adriano Moreira foi, desde sempre, uma incontornável e ilustre figura da História de Portugal. Numa vida plena, que atravessou dois séculos e três regimes, dedicou-se, primeiro, à vida académica e, depois, à política. Esteve preso em Aljube onde foi companheiro de cela de Mário Soares, de quem se tornaria amigo para a vida.

Durante o Estado Novo, a convite de António de Oliveira Salazar e para que pudesse “por em prática aquilo que ensinava nas suas aulas”, ocupou o cargo de Secretário de Estado da Administração Ultramarina e, posteriormente, de Ministro do Ultramar (conta-se até uma história engraçada sobre este convite, constando-se que Salazar lhe terá dito: “Sei que tem razões para me dizer que não [por causa da questão que levou ao seu encarceramento]”, ao que Adriano Moreira terá respondido: “Desculpe, mas não é o único português que põe os interesses do país acima das suas discordâncias.").

Mestre nas relações e na geopolítica, com uma visão alargada do mundo e dos caminhos a seguir, o Professor Adriano Moreira gozava da apetência de, usualmente, ter razão antes do tempo! Terá sido, ao tempo, um dos fundadores do projeto Lusofonia e um dos poucos com uma visão lúcida e cuidada para permitir a Portugal uma saída digna, harmoniosa e integradora de África. Reformista, adepto fervoroso do institucionalismo, que via como a proteção das pessoas e das nações aos radicalismos, traçou um caminho notável, por exemplo, na reversão do Estatuto do Indígena, que negava a cidadania e permitia abusos selváticos; permitiu o alargamento da cidadania e o direito de todos os portugueses entrarem, circularem e estabelecerem-se em qualquer parte do território nacional; criou o Código do Trabalho Rural e fomentou a criação do ensino superior em Angola e Moçambique, entre tanto mais que preconizava! Foi, aliás, esta vertente reformista que levou António de Oliveira Salazar a pedir-lhe que mudasse o rumo daquela política direcionada para as colónias. “Vossa Excelência acaba de mudar de Ministro”, respondeu Adriano Moreira, apresentando a sua demissão. Tivesse ao Professor Adriano Moreira sido permitido continuar o seu trabalho com a liberdade para implementar as medidas que preconizava e estou certo de que Portugal teria evitado a tragédia da Guerra Colonial Ultramarina que hoje, sobeja e infelizmente, conhecemos.

Um homem com ideias bastante claras sobre aquilo que devia ser o futuro do País, o Professor Adriano Moreira foi um dos mais ilustres Presidentes do CDS e, mais tarde, Conselheiro de Estado.

Com a sua partida, Portugal perdeu um Estadista, provavelmente um dos últimos. Esvaiu-se uma referência, quer para aqueles que com ele concordavam, quer para os que, não o fazendo, o respeitavam. Deixou-nos um insigne democrata-cristão. Sobretudo, deixou-nos um homem bom.

Neste circunstancialismo da irreparável perda, não pode deixar de ser motivo de reflexão a constatação de que se tem vindo a perder uma geração de valores, de princípios, de pensadores, de humanistas. Será, naturalmente, o conceito da própria vida. Há, no entanto, um vazio além do desaparecimento físico de figuras como o Professor Adriano Moreira. E o que não podemos acolher, de forma corriqueira e desinteressada, é que, assim sendo, não se preparem as novas gerações. Percebamos o alcance de pensamento, seriedade e até da postura destes que nos vão deixando; interiorizemos o bem-comum como o único dos propósitos; façamos ver às novas gerações que nesta diligente procura, “os valores são o eixo da roda. A roda anda, passa por mudanças, e o eixo acompanha a roda, mas não anda.”

Serão estas novas gerações as responsáveis para que, nos seus desígnios, mormente no serviço à res publica, nos possamos rever nestes homens e mulheres de tanto valor que, com o tempo, vão perecendo e deixando o seu legado. Saibamos honrá-lo!

Até sempre, Professor Adriano Moreira. E obrigado!

Manuel João Fernandes de Nascimento

Deputado Municipal pelo CDS-PP,

Vila Nova de Famalicão, 24 de outubro de 2022.


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