Continuar Abril
Decorreram na passada semana, em sessão solene da Assembleia Municipal de VN Famalicão, as cerimónias alusivas à comemoração do 49.º aniversário do 25 de Abril de 1974.
De entre aquelas intervenções, que como habitualmente ouvi, houve-as mais incisivas, mais preparadas ou mais críticas. O 25 de Abril de 1974 é uma data que a ninguém deixa (ou devia deixar) dúvidas, pela importância que a mudança de regime trouxe ao nosso País, consolidado com o 25 de Novembro de 1975, em nosso entendimento. Toda aquela panóplia de eventos, até os que imediatamente lhe sucederam, fazem daquele período um dos mais determinantes da História de Portugal, e é assim natural que várias pessoas possam sobre aquela data dissertar de modo distinto, ainda que com o comum conhecimento e reconhecimento do que a mesma significa para todos.
De todos os intervenientes, pretendo fazer um pequeno prólogo para realçar o destaque dado à juventude. Vejo com bons olhos – sempre vi! – a participação dos jovens na vida política. Assim, é naturalmente com bastante satisfação que constato que quando toca a falar de uma data tão marcante para o nosso País, os jovens sejam chamados a intervir, a dar a sua opinião, a exprimir o seu ponto de vista. Importante é que o façam de acordo com a História, seus pergaminhos e registos, e não numa perspetiva doutrinária de encaminhamento ideológico, cujos resultados sabemos bem quais são.
Das diversas intervenções, permito-me particular atenção à do representante do Partido Socialista. Desde logo, porque me revejo em muito da mesma, atento o seu conteúdo. E digo-o sem qualquer dose de ironia. Porém, em modesto entendimento, à parte dos considerandos iniciais aos quais não conseguiram resistir, uma intervenção serena e bem estruturada. Nela, o PS dirigiu-se aos nossos filhos, às gerações mais jovens, que nascidos longe de Abril, só dos livros e das estórias conhecem aquele País que ficou para trás. Num exercício imaginativo, aludiram à realidade de então, invocando a guerra colonial, a censura, a segregação e submissão de género, o sistema educativo, o impedimento associativo e de manifestação, a ausência de cuidados de saúde, condicionamento de atividade política, existência de uma polícia política,… entre outras. Ou seja, Portugal era, mais ou menos assim antes de Abril.
Todavia, devo reconhecer, sempre em modesto entendimento, que faltou algo. Não sei se por falta de tempo, por estratégia ou por outro qualquer motivo, faltou pedir também Capitães de Abril que imaginassem. Suponham que aqueles Capitães de Abril, que os nossos Pais e os nossos Avós, que estavam dispostos a dar a vida pela Revolução, conseguiam adivinhar o que o futuro nos trazia. Ultrapassada a fase de libertação da opressão e ditaduras, em Abril de 74 e Novembro de 75, que nunca tenham qualquer dúvida de que será sempre melhor viver num Portugal Pós-Revolução do que Pré-Revolução, ainda que seja uma revolução por cumprir em tantas matérias! Mas imaginem, Capitães de Abril… Imaginem que quase 50 anos após aquele período, e aquele estado a que Portugal chegou, o sistema educativo está em falha e, chegados ao terceiro período letivo, há ainda 20.000 alunos sem professor; imaginem que o Serviço Nacional de Saúde não responde às necessidades dos utentes, que há filas de espera de anos e gente que morre à espera de uma intervenção cirúrgica ou até de consulta; imaginem que ex-Ministros se encontram presos ou à espera de julgamento, acusados de crimes alegadamente cometidos enquanto no exercício do serviço público; imaginem um Governo que, com maioria absoluta, faz uso do seu poder para estabelecer uma rede de amigos e familiares a quem empregam, desprestigiando tanta gente competente e capaz; imaginem um País sem política agrícola, em que os agricultores são constantemente ignorados e relegados para o esquecimento; imaginem um País em que o Governo esbanja o dinheiro dos contribuintes em jogos de empresas, amigos e camaradas, enquanto o povo continua a passar necessidades; imaginem um País em que, na ordem do dia estão relatos de agressões em gabinetes ministeriais… teriam tanto para imaginar, caros Capitães. Nós, no entanto, não precisamos de imaginar; Porque Portugal é assim. Ou tem sido! E por isso, compreendemos, no discurso do Partido Socialista, o alegado sentimento de mea culpa pelo modo como por vezes foi tratada a democracia.
Reiterando que, sem que qualquer dúvida reste, é sempre preferível um Portugal pós-abril, o que pensariam os Capitães de Abril se o soubessem?
Há, no entanto, um alento: é que, se durante o Estado Novo, o povo tinha que se resignar perante a atitude opressora de um Estado esmagador, hodiernamente, não temos que nos sujeitar a isto; não temos que aceitar esta subjugação. E temos ferramentas democráticas para que nos vejamos livres daqueles que, hoje, representam o regime. É que o problema não é do regime; é das pessoas. Façamos valer Abril!
Manuel João Fernandes de Nascimento
Deputado Municipal pelo CDS-PP,
Vila Nova de Famalicão, 02 de maio de 2023.
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