VAR e a Rentrée

O final do Verão é, habitualmente, além de quente, uma época agitada.

É altura de mudanças, de renovação, de novos começos. Assemelha-se um pouco, e em quase todas as áreas, àquela noite de passagem de ano, em que todos ansiamos um novo arranque do novo ano que está prestes a chegar, que desejamos sempre melhor do que o ano que termina. É o tempo em que nos habituámos a partir “do zero” novamente. Por norma, acostumámo-nos que assim seja.

Consequentemente, é também época de fervor, de emoções à flor da pele, de entusiasmo, e por isso também de alguns excessos.

E em Portugal, os excessos iniciais da época refletem-se imediatamente no discurso futebolístico. É o Porto, o Benfica, o Sporting, os penalties, os foras-de-jogo, o VAR, os cartões… tudo gira, durante semanas a fio, à volta de uma discussão (completamente supérflua) sobre uma decisão de arbitragem, sobre alegados favorecimentos ou prejuízos. E a discussão escala exponencialmente com o passar do tempo. Há dias, no Estádio do Dragão, o FC Porto defrontava o Arouca numa partida que, de modo sui generis, durava até aos 110 minutos, recheada de polémica. Foi quanto baste para que se tivesse levantado uma onda de indignação que ainda hoje dura: uns porque o FC Porto foi prejudicado, outros porque foi beneficiado, outros porque o VAR não funcionou, outros porque foi pelo telefone…

E apesar de eu ver nisto uma intempestividade completamente retrógrada e injustificada pela importância que este circo mediático não deve ter na nossa vida quotidiana, os motivos da minha preocupação são distintos.

Num país com tanto por decidir, em que as famílias passam tantas dificuldades, por força de políticas desastrosas e incapazes, que falham no combate à inflação, na criação de condições – sociais, económicas… - para os seus jovens e seniores, no apoio ao setor terciário, na agricultura, nos combustíveis, na educação, na saúde… a indignação… é com o VAR!

Aqueles que se indignam com o VAR num jogo de futebol e conseguem passar semanas a discutir o assunto, dia e noite, são os mesmos que, vivendo em Portugal, sofrem na pele as dificuldades criadas por condições (ou falta delas) como as enunciadas anteriormente, mas disso se desinteressam. Desligam-se da responsabilidade de pugnar por mais e melhores condições de vida, porque estão demasiado ocupados a discutir um jogo de futebol.

É esta a imagem da atualidade. E tudo tem sido uma questão de propaganda, prioridades e concentração de atenções. Tudo tem girado à volta disto; tem sido este o mote do escamoteamento deliberado que tem permitido tudo e mais alguma coisa a quem nos governa.

E os exemplos são muitos, e há sempre um recente: durante a semana passada, enquanto ainda se discutia o jogo de futebol, o CITIUS, plataforma digital da Justiça em Portugal, esteve inacessível, paralisando tribunais e provocando o adiamento de diligências que serão remarcadas e espalhadas por meses! Alguém se indignou? Ou alguém se indignou tanto como com o VAR? Tão pouco preciso de perguntar qual destes temas tem maior influência na vida dos cidadãos (espero eu!).

Mas isto dá jeito.

É que enquanto se discute se o VAR anulou um penalty pelo telefone, ninguém está a pensar nos sucessivos falhanços e incapacidade de resposta da rede de cuidados de saúde e Urgências do SNS; ninguém está a pensar na subida vertiginosa do preço dos combustíveis; ninguém está a pensar no funcionamento da Justiça; ninguém se lembra que os Professores continuam a lutar por condições dignas; ninguém se lembra das precárias e insustentáveis condições das Forças Armadas; já ninguém se recorda da TAP e das Galambices…

E a juntar a este cenário, na sua encenação de Rentrée e com a habitual impunidade, o Primeiro-Ministro vai-nos ao bolso buscar mais uns trocos para, numa argúcia venezuelana, atirar aos jovens, oferecendo bilhetes de comboio e estadias em pousadas de Juventude. E assim, também já ninguém se lembra que a responsabilidade de ter criado condições para que esses jovens não precisassem de bilhetes de comboio ou de estadias em pousadas de Juventude… era do próprio Primeiro-Ministro!

Dizia Shakespeare em “Hamlet”: “Há algo de podre no reino da Dinamarca!”

Manuel João Fernandes de Nascimento

Deputado Municipal pelo CDS-PP,

Vila Nova de Famalicão, 11 de setembro de 2023.


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