500 anos do nascimento de Camões
Luís Vaz de Camões nasceu há 500 anos, alegadamente a 23 de janeiro.
No presente, 500 anos depois do seu nascimento, a obra daquele que foi (e é!) a maior efígie da literatura portuguesa, pela excelência do vertido na sua escrita, passa hoje incredulamente despercebido a uma parte significativa da população. A uma parte excessiva, diria eu! O desinteresse pela leitura, pelo conhecimento, pela história…, em prol da fugacidade (e tantas vezes futilidade!) do quotidiano poderá explicar parte desse alheamento. Num mundo que gira à volta de redes sociais e tecnologias, ainda que destas se possa e deva tirar o melhor proveito, sem prejuízo das vantagens e desvantagens, é cada vez mais raro encontrar alguém a ler um livro.
Mas isso não explica tudo. Antes pelo contrário, diria eu. Não fosse a tecnologia, as redes sociais, a facilidade de acesso aos meios de comunicação, e poucos saberiam que em 2024 se comemora esta efeméride. E assim é porque aqueles que têm a efetiva responsabilidade de o lembrar, comemorar, organizar… não o fazem! Refiro-me, naturalmente, ao Governo de Portugal e especificamente ao Ministério da Cultura, que de cultura parece mesmo só ter o nome. Adão e Silva, ex-secretário nacional de Eduardo Ferro Rodrigues, tem, como se percebe, outras prioridades. Antes de se tornar Ministro da Cultura, em 2022, foi nomeado Comissário Executivo das celebrações do 50.º aniversário do 25 de abril (em 2024), cargo pelo qual iria auferir mais de 4500 euros (brutos) até 2026, ou seja, até dois anos após as celebrações terem ocorrido, como consagrado em resolução do Conselho de Ministros; além disso, é o Ministro da Cultura que consegue dizer que “o 25 de novembro é uma data que diz pouco à sociedade portuguesa” e que critica as comissões parlamentares de inquérito na sua própria legislatura. Ondas que gosta de surfar…
E por isso, estabelecendo um termo de comparação, podemos imaginar o que não diríamos se víssemos um país estrangeiro, como Espanha, Itália, Inglaterra ou Rússia esquecer ou ignorar o 500.º aniversário do nascimento de alguém como Cervantes, Dante, Shakespeare ou Pushkin. Pois bem, tudo quanto podemos dizer do Estado Português que, no mesmo ano, tanto discute a trasladação de Eça de Queiroz para o Panteão Nacional, como ignora o simbólico e marcante aniversário de nascimento do maior dos seus ícones literários.
Ainda que o Governo (demitido) dê a mão à palmatória e confesse ter ignorado esta efeméride, criando um programa comemorativo para celebrar mais à frente durante o ano, e em minha opinião deve fazê-lo!, a verdade é que o dia 23 de janeiro passou incólume e o nosso maior poeta, Luís de Camões, foi esquecido. Pergunto-me se o mesmo se passaria se o visado fosse, por exemplo, uma equipa de futebol? Todos adivinhamos a resposta…
Importa, também, referir que no decurso do ano de 2021 foi criada uma comissão para a organização dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões, que se comprometeu a apresentar, até ao final de 2022, um programa arrojado (como merecia!) para a celebração de uma data tão marcante. Passou 2022, 2023… e passou a data em questão sem que qualquer programa tivesse sido apresentado. Aliás, lê-se na imprensa (o arquivamento destas notícias é uma das vantagens das redes sociais!) que “…um programa para as comemorações do quinto centenário de Luís de Camões vai ser apresentado até ao final do ano” e “…a comissão tem até ao final de 2022 para entregar ao Governo uma proposta de programa oficial das comemorações e a respetiva previsão de encargos”. A verdade, porém, é que o Orçamento de Estado para o ano em questão foi aprovado sem qualquer verba de referência para esta celebração, o que se confirma pelas notícias na comunicação social: “Orçamento para 2024 ignora aniversário dos 500 anos de Camões; Adão e Silva só anteontem falou com Rita Marnoto, comissária para as comemorações do V Centenário do autor d’ Os Lusíadas, que não tem um euro inscrito no OE.”
A cereja no topo do bolo é sabermos que em Portugal há um Instituto Camões, alegadamente criado para “a promoção da língua portuguesa e da cultura portuguesa no exterior”. Se sem esta organização já se entendia inadmissível a ignorância, com a sua existência apenas se confirma incompetência.
Talvez um estágio no Instituto Cervantes ou Instituto Dante Alighieri pudesse emendar alguma coisa.
É também sobre isto que os Portugueses terão uma palavra a dizer no próximo dia 10 de março. Chegará a hora de dizer se querem que esta reconhecida incompetência continue a passear-se nos corredores dos Ministérios, ignorando e desconsiderando tudo quanto a nossa Pátria tem de melhor, desrespeitando inclusivamente a sua memória.
“Erros meus, má fortuna, amor ardente em minha perdição se conjuraram”, rezava Camões; merecia muito mais, digo eu.
Manuel João Fernandes de Nascimento
Deputado na Assembleia Municipal de VN Famalicão pelo CDS-PP
29 janeiro 2024.
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